A rebeldia do silêncio em tempos de ruídos - Uma conversa sobre vício, domínio próprio e o caminho de volta ao silêncio
- Kezia Garcia
- 28 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Por ter crescido no meio evangélico, sempre ouvi sobre os malefícios do vício, na maioria das vezes se limitando ao consumo excessivo de drogas ilícitas e álcool. Já mais velha e criando um pouco mais de senso crítico, percebi o quão pouco se falava sobre os malefícios do vício em si e como ele pode se manifestar até mesmo no consumo de coisas boas.
Tenho refletido sobre esse tema com mais frequência nos últimos meses, após perceber o meu próprio vício.

Quando percebi que me tornei uma cidade sem muro
Comecei a utilizar as redes sociais (e aqui me deterei mais especificamente no Instagram) como forma de trabalho, para divulgar tanto meu serviço como revisora e preparadora de textos quanto meus livros (para quem não sabe, sou escritora de livros de mistério). Veja bem, até este ponto, minha relação com a rede era positiva. Mas é claro que o pecado sempre encontra uma forma de estragar.
Salomão diz que aquele que não consegue se dominar é semelhante a uma cidade cujos muros foram derrubados. É vulnerável, fraco. E foi assim que me percebi recentemente, sem força ou domínio próprio diante da necessidade constante de desbloquear a tela do celular e abrir o aplicativo do Instagram. Mesmo que não houvesse mais nada ali de meu interesse. Mesmo que, no fundo, eu estivesse exausta dos mesmos conteúdos rasos e performances. Porque não precisava haver um motivo para eu estar ali, desde que eu simplesmente estivesse.

Acredito que meus dedos já estavam tão acostumados que o movimento se tornou automático. E não sei de quanto em quanto tempo eles se moviam naquela direção, mas os prejuízos apareceram: falta de foco, falta de concentração. Demorei mais de 9 meses para conseguir terminar de escrever um livro de 100 páginas, mesmo já sabendo cada linha dos acontecimentos.
Minha mente estava doente. Mesmo colocando o celular a metros de distância, meus pensamentos continuavam tomados por ele. E a tela em branco do Google Docs, que sempre havia sido um belo convite, tornou-se um pesadelo.
''Como a cidade derrubada, sem muro, assim é o homem que não pode conter o seu espírito.'' — Provérbios 25:28
Às vezes, para vencer o vício, é preciso se rebelar
Em A Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han descreve os dias atuais como uma cadeia de estímulos sem pausa.
Tudo é convidativo. Tudo entretém. Tudo brilha e captura sua atenção, e, veja que maravilha: você sequer precisa se dar ao trabalho de pensar! Mas convenhamos, mesmo que você queira, como pensar quando cada segundo de seu dia está preenchido com estímulos vazios?

Ter boas ideias está intimamente ligado a momentos de tédio. Murakami corre por horas pela manhã e, só então, vai escrever. Não à toa, tem um livro só com as reflexões que ele teve durante essas corridas. Nietzsche caminhava quilômetros só para pensar. E as melhores ideias de cenas ou reviravoltas para meus livros surgiram enquanto eu fazia alguma atividade puramente manual (como lavar louça, por exemplo) na qual meu cérebro podia descansar, sem música no fone ou um podcast tocando para “aproveitar o tempo e ser mais produtiva”.
''Nunca ninguém está mais ativo do que quando não faz nada, nunca está menos sozinho do que quando está consigo mesmo.'' — Byung-Chul Han
Heidegger diz que, no tédio, é que o ser humano se depara com o nada e, nesse nada, encontra o próprio ser.
''O tédio concentra-se cada vez mais em nós, em nossa situação enquanto tal; e o que há de singular na situação não tem grande importância. De maneira acessória, ela não é senão aquilo junto ao que nos entediamos, não o que nos entedia.'' — Heidegger
Talvez seja por isso que alguns se questionam por que não há tantos gênios na atualidade quanto nos séculos anteriores. Porque não há pensamento profundo sem tédio.
É com isso em mente que te faço um convite: permita-se ficar um pouco mais desconectado. Permita-se ter momentos de silêncio. Pare um pouco de querer sempre preencher os momentos com música, podcasts ou vídeos. Separe alguns minutos do seu dia para ser apenas você e seus pensamentos, nem que seja apenas no seu banho. Permita-se rebelar-se. Porque, em um mundo de tantos estímulos, permitir-se sentir tédio é ato de rebeldia.



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