O peso de criar para ser vista - O dia em que notei que criava para gráficos, e não para pessoas.
- Kezia Garcia
- 27 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

Tenho refletido por esses dias sobre minha produção de conteúdo no Instagram. Esta plataforma se tornou a principal ferramenta de divulgação do meu trabalho como escritora. E uma vez que hoje a minha renda vem das vendas dos meus livros, foi natural que surgisse uma dependência dela.
Mas convenhamos. Rede social? Já faz tempo que o Instagram se tornou tudo menos um local de socialização online. Uma rede de propagandas? Portfólio digital? Talvez uma mistura entre essas duas coisas. E não, jamais reclamarei da possibilidade de poder divulgar meu trabalho de graça.

Em épocas em que a propaganda só acontecia mediante altos investimentos financeiros, viver das vendas dos meus livros seria um sonho quase inalcançável. Então, sim, o Instagram me trouxe muitas coisas positivas: me permitiu conhecer leitores maravilhosos, fazer amizades incríveis com outras escritoras, além do crescimento do meu próprio trabalho. Mas ao mesmo tempo, quando olho para aquela rede, sinto um distanciamento de quem eu sou.
Sinto saudade daquela época em que eu parava à noite para escrever em meu finado blog apenas por prazer, sem me importar com o número de comentários, satisfeita apenas em saber que eu tinha produzido um bom texto (e se alguém o lesse e se sentisse tocado ou ajudado de alguma forma, que incrível!). Tenho saudade da época em que produzia meus primeiros carrosséis no Instagram. Nada de vídeos de 15 segundos (isso sequer existia por lá naquele ponto).

É bem engraçado. Quando olho para meus conteúdos dessa época, vejo que aqueles números de comentários, hoje, me deixariam desesperada. Eu pensaria: O que há de errado? Ninguém vê meus conteúdos! Mas nem sempre foi assim. Lembro de ficar satisfeita com cada pequena interação, e, antes disso, lembro-me de ficar satisfeita em simplesmente olhar para um conteúdo e para o tempo que eu havia me dedicado em fazê-lo e me contentar apenas em poder dizer: isso ficou muito bom!
E para mim, aqui está a essência da criação: olhar e poder ver que o que você fez é bom, e se alegrar nisso (e não é exatamente isso que Deus fez a cada etapa da Grande Criação?). Pois bem. Já faz um bom tempo que não sinto isso em minha produção de conteúdo. Esqueci-me de como é simplesmente olhar para algo que acabei de produzir, me encantar com o quanto aquilo é bom e me alegrar com isso. Perdi-me em meio a expectativas por impressões, comentários, salvamentos, e, em meio a isso, perdi-me de mim mesma e do que me faz querer criar.

Não sou ingênua. Sei que preciso divulgar meu trabalho para pagar minhas contas. Mas também sou artista. Aliás, o motivo de eu começar nisso não foi justamente pela minha paixão por fazer arte? Se perco isso, se perco a arte, então também não há razão em continuar a produzir conteúdos, pois eles se tornariam vazios, sem identidade, sem beleza; apenas panfletos malfeitos. Na verdade, foi o que se tornaram.
Por isso decidi me desconectar do Instagram por um tempo. Quero voltar a me reencontrar. Voltar a consumir o que me faz me inspirar e que, com o tempo, foi substituído por tempos absurdos de rolagem daquele feed infinito. Quero relembrar de como é produzir com liberdade, beleza e verdade. E talvez, em janeiro, quando retornar ao Instagram, eu consiga me ver novamente nas lâminas de meus carrosséis e nos vídeos de meu feed. Talvez eu consiga voltar a ver arte.
(Acho que este texto até que… ficou bom).



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